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Por que o Brasil necessita de juros reais elevados para controlar a inflação?

  • Foto do escritor: Luis Valini Neto
    Luis Valini Neto
  • 20 de mar.
  • 8 min de leitura
Juros reais elevados

Por que o Brasil necessita de juros reais elevados para controlar a inflação?

Esta questão tem perturbado empresários, administradores e economistas há várias décadas. E o mais intrigante é que nem mesmo o Banco Central dispõe de uma resposta clara. Em fevereiro deste ano, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, manifestou-se publicamente sobre a necessidade de se aprofundar a discussão com a sociedade em relação a um determinado assunto: qual a razão pela qual o Brasil necessita de taxas de juros tão elevadas, em comparação com seus pares para alcançar a meta de inflação?

Se até o chefe do Banco Central faz a pergunta em voz alta, imagine a confusão na cabeça das pessoas e do empresariado brasileiro. juros reais elevados


Vamos tentar desmontar isso juntos.


Primeiro, o tamanho do problema

Após a redução da Selic nesta semana, o Brasil mantém-se como a segunda maior taxa real global - pelo oitavo mês seguido, de acordo com um estudo da MoneYou e Lev Intelligence que leva em conta as 40 maiores economias globais. Nosso juro real chegou a 9,51% ao ano. Os Estados Unidos trabalham com uma taxa de juro real de 0,40%.

Para controlar a inflação em outras nações, taxas reais de 1% a 3% são geralmente adequadas. O Brasil opera com um múltiplo disso. Por quê?

A resposta não é atribuível a um único fator. Há pelo menos cinco — e elas se alimentam entre si.


1. Nossa taxa de equilíbrio já nasce alta

Todo banco central opera em torno de uma referência chamada taxa neutra (muitas vezes chamada de r* ou neutral rate), isto é, a taxa de juros que mantém a economia em equilíbrio — nem estimulando, nem desacelerando o crescimento.

No Brasil, essa taxa neutra já é, de forma geral, mais alta do que nos países desenvolvidos. Quando o Banco Central precisa elevar os juros para controlar a inflação, ele os eleva de uma base alta, e rapidamente alcançamos números que parecem inacreditáveis para o resto do mundo.

A transmissão da política monetária aqui também é diferente: os juros demoram mais para surtir efeito na economia real, exigindo doses mais fortes do remédio para o mesmo resultado.


2. O fiscal manda mais do que parece

Esse é o ponto central — e politicamente o mais difícil de enfrentar.

Quando o governo gasta além do que arrecada de forma recorrente , precisa se financiar com maior frequência e volume. Ao longo do tempo, isso eleva a dívida pública, intensifica a percepção de risco fiscal e impulsiona os investidores a demandar maiores retornos para financiar a país. Nesse contexto, discutir juros sem discutir gasto público é como olhar para o termômetro e ignorar a febre.

É essencial identificar a função social do Estado. A proteção social é necessária. No entanto, no Brasil, diversas políticas aliviam o problema imediato sem estabelecer de maneira consistente, rotas para autonomia, trabalho, produtividade e empreendedorismo. Não basta distribuir renda da forma como é feita hoje.  Transferências de renda são importantes, mas não suficientes. O país também precisa de educação de qualidade e saúde básica eficiente para que as pessoas tenham condições reais de se desenvolver e prosperar. Essa é uma transformação de muito longo prazo que infelizmente em nosso país nunca aparece.


3. O crédito direcionado que sabota a política monetária

Esse é um paradoxo tipicamente brasileiro que pouca gente explica bem.

Quando o Banco Central eleva a Selic, o raciocínio é simples: um crédito mais caro inibe o consumo e o investimento, contribuindo para o arrefecimento da inflação. O problema é que essa lógica só funciona para uma parte da economia brasileira.

No cenário atual de 2026, o crédito que segue regras governamentais (chamado de Crédito Direcionado) representa aproximadamente 40% a 45% de todo o estoque de crédito do Brasil, operando com taxas subsidiadas pelo governo, completamente imunes à política monetária. Essa parcela continua aquecendo a demanda mesmo quando o BC aperta o freio.

O resultado é previsível: para compensar o que os subsídios anulam, o Banco Central precisa subir a Selic mais do que seria necessário. Quem acaba arcando com isso são as empresas e famílias que tomam crédito no mercado livre — que pagam juros mais altos, por mais tempo.

Existe ainda uma complicação: esses subsídios são financiados pelo Tesouro, o que eleva o déficit público e pressiona as projeções inflacionárias, justamente o que a Selic visa solucionar. Logo, temos um ciclo que se retroalimenta.


4. As expectativas que não ancoram

O Brasil possui uma longa e onerosa memória inflacionária que, mesmo em épocas de preços controlados, continua influenciando a conduta de empresas e empregados. Prevendo uma inflação futura, eles reajustam preços e salários preventivamente, resultando em um mecanismo de autorrealização conhecido como inércia inflacionária. O impacto prático é que, apesar dos progressos institucionais desde a implementação do regime de metas em 1999, o Banco Central ainda opera com uma credibilidade limitada: qualquer surto inflacionário demanda uma reação monetária desproporcional, com juros acima do nível neutro por um período maior, somente para prevenir que as expectativas se desancorem. Mais do que uma questão conjuntural, é um fator estrutural — e estabelecer a confiança necessária para vencê-lo é um processo de décadas, não de um mandato de governo.



5. A baixa produtividade que ninguém quer discutir

Conforme tem reiterado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a resiliência do mercado de trabalho brasileiro, embora positiva do ponto de vista social, impõe desafios à autoridade monetária. O aumento dos salários reais acima do aumento da produtividade provoca uma pressão nos custos que resulta em inflação nos serviços, demandando uma taxa de juros estruturalmente mais alta para assegurar a convergência das metas.


Evolução da Selic x IPCA x Juros Reais

A seguir demonstramos a evolução da taxa de juros real, Selic, e IPCA desde janeiro de 2020 até fevereiro de 2026.

Mês/Ano

Taxa Selic Meta (% a.a.)

IPCA Acum. 12m (%)

Juro Real Estimado (%)

jan/20

4,50%

4,19%

0,30%

fev/20

4,25%

4,00%

0,24%

mar/20

3,75%

3,30%

0,44%

abr/20

3,75%

2,40%

1,32%

mai/20

3,00%

1,88%

1,10%

jun/20

2,25%

2,13%

0,12%

jul/20

2,25%

2,31%

-0,06%

ago/20

2,00%

2,44%

-0,43%

set/20

2,00%

3,14%

-1,11%

out/20

2,00%

3,92%

-1,85%

nov/20

2,00%

4,31%

-2,21%

dez/20

2,00%

4,52%

-2,41%

jan/21

2,00%

4,56%

-2,45%

fev/21

2,00%

5,20%

-3,04%

mar/21

2,75%

6,10%

-3,16%

abr/21

2,75%

6,76%

-3,76%

mai/21

3,50%

8,06%

-4,22%

jun/21

4,25%

8,35%

-3,78%

jul/21

4,25%

8,99%

-4,35%

ago/21

5,25%

9,68%

-4,04%

set/21

6,25%

10,25%

-3,63%

out/21

7,75%

10,67%

-2,64%

nov/21

7,75%

10,74%

-2,70%

dez/21

9,25%

10,06%

-0,74%

jan/22

9,25%

10,38%

-1,02%

fev/22

10,75%

10,54%

0,19%

mar/22

11,75%

11,30%

0,40%

abr/22

11,75%

12,13%

-0,34%

mai/22

12,75%

11,73%

0,91%

jun/22

13,25%

11,89%

1,22%

jul/22

13,25%

10,07%

2,89%

ago/22

13,75%

8,73%

4,62%

set/22

13,75%

7,17%

6,14%

out/22

13,75%

6,47%

6,84%

nov/22

13,75%

5,90%

7,41%

dez/22

13,75%

5,78%

7,53%

jan/23

13,75%

5,77%

7,54%

fev/23

13,75%

5,60%

7,72%

mar/23

13,75%

4,65%

8,70%

abr/23

13,75%

4,18%

9,19%

mai/23

13,75%

3,94%

9,44%

jun/23

13,75%

3,16%

10,27%

jul/23

13,75%

3,99%

9,39%

ago/23

13,25%

4,61%

8,26%

set/23

12,75%

5,19%

7,19%

out/23

12,75%

4,82%

7,57%

nov/23

12,25%

4,68%

7,23%

dez/23

11,75%

4,62%

6,82%

jan/24

11,25%

4,51%

6,45%

fev/24

11,25%

4,50%

6,46%

mar/24

10,75%

3,93%

6,56%

abr/24

10,75%

3,69%

6,81%

mai/24

10,50%

3,93%

6,32%

jun/24

10,50%

4,23%

6,02%

jul/24

10,50%

4,50%

5,74%

ago/24

10,50%

4,24%

6,01%

set/24

10,75%

4,42%

6,06%

out/24

10,75%

4,76%

5,72%

nov/24

11,25%

4,87%

6,08%

dez/24

12,25%

4,83%

7,08%

jan/25

13,25%

4,56%

8,31%

fev/25

13,25%

5,06%

7,80%

mar/25

14,25%

5,48%

8,31%

abr/25

14,25%

5,53%

8,26%

mai/25

14,75%

5,32%

8,95%

jun/25

15,00%

5,35%

9,16%

jul/25

15,00%

5,23%

9,28%

ago/25

15,00%

5,13%

9,39%

set/25

15,00%

5,17%

9,35%

out/25

15,00%

4,68%

9,86%

nov/25

15,00%

4,46%

10,09%

dez/25

15,00%

4,26%

10,30%

jan/26

15,00%

4,44%

10,11%

fev/26

15,00%

3,81%

10,78%

Juro real calculado pela fórmula de Fisher: [(1 + Selic/100) / (1 + IPCA/100) - 1] × 100. Fonte: BCB / IBGE.

Selic x IPCA x Juros Reais

E o que isso significa na prática para a sua empresa?

Aqui eu vou sair da teoria e entrar no que vejo no dia a dia da consultoria.

Vou para o dia a dia: no setor supermercadista, uma margem EBITDA de 7% é considerada boa. Para ter noção, o Carrefour Brasil operou com 5,9% em 2024, o Assaí gira em torno de 7% e o Grupo Mateus, referência em eficiência no Norte e Nordeste, chegou a 8% em 2025. Ou seja, um supermercado que fatura R$ 100 milhões e gera R$ 7 milhões antes das despesas financeiras está, na prática, bem gerido.

O problema começa quando essa mesma empresa precisa de crédito para girar o negócio. Um endividamento de R$ 30 milhões — metade no curto, metade no longo prazo — é algo absolutamente comum em redes regionais que financiam estoque, capital de giro ou expansão. Mas o custo dessa dívida, nas condições atuais, é de CDI + 3,5% ao ano, o que equivale a 19,03% a.a. se somarmos o IOF sobre as operações de crédito, o custo efetivo sobe para 23,05% ao ano.

Multiplicando esse percentual pelos R$ 30 milhões de dívida, chegamos a R$ 6.915.000 de despesa financeira anual. Sobram menos de R$ 100 mil antes do Imposto de renda e Contribuição Social em uma empresa que faturou R$ 100 milhões e operou com eficiência durante o ano inteiro. Não é má gestão. É o efeito concreto de uma Selic a 15,0% sobre quem precisa de crédito para funcionar. Que empresa suporta esta condição muito tempo?

Um caso emblemático que estamos acompanhando é o do Grupo Pão de Açúcar, em recuperação judicial. Uma rede supermercadista tradicionalmente gera margem líquida entre 4% e 6% — setor de volume, giro alto, margem apertada.

Esta realidade esta presente em praticamente todos os setores e esta conta levará anos para ser paga. Nesse contexto, qualquer necessidade de capital de terceiros com as taxas que praticamos hoje simplesmente inviabiliza a operação. Não é má gestão isolada. É o efeito devastador do custo do dinheiro sobre negócios que operam com margens estreitas.

A questão que coloco em todos os meus treinamentos é, na essência, uma pergunta sobre racionalidade econômica: por que um empresário alocaria seu capital numa atividade produtiva — sujeita a risco operacional, passivo trabalhista, insegurança jurídica, ciclos de mercado e inúmeras outras variáveis de difícil controle — se a renda fixa já remunera esse capital a taxas próximas ou superiores a 15% ao ano, sem que ele precise assumir nenhum desses riscos?

A teoria financeira é clara a esse respeito. O conceito de custo de oportunidade estabelece que o retorno mínimo exigido de qualquer investimento deve superar a melhor alternativa disponível de risco equivalente. Quando a taxa livre de risco — representada pela Selic — se aproxima ou supera o retorno sobre o capital investido na atividade produtiva, o prêmio pelo risco empresarial deixa de existir. Em termos técnicos, o EVA (Economic Value Added) da empresa torna-se nulo ou negativo: ela pode até gerar lucro contábil, mas destrói valor econômico.

Esse é o efeito mais profundo e menos debatido da política de juros elevados sobre a economia real. Não se trata apenas do custo da dívida — trata-se da erosão do incentivo à atividade produtiva como classe de ativo. Enquanto o Brasil mantiver uma taxa real de juros estruturalmente elevada, a pergunta continuará sem resposta satisfatória: empreender, no sentido econômico pleno do termo, só faz sentido para quem tem acesso a retornos que o mercado de crédito simplesmente não remunera.

O que precisaria mudar?

A resposta está num conjunto de transformações que não se resolvem num mandato presidencial. Disciplina fiscal consistente, reforma do crédito direcionado, reconstrução das expectativas de longo prazo, ganhos reais de produtividade — e, acima de tudo, investimento genuíno em educação e saúde básica que forme uma população com capacidade e vontade de produzir.

É um caminho longo. Mas como costumo dizer: se nunca começarmos, nunca chegaremos lá.

Enquanto esse cenário não se transforma, o recado para quem gere empresas é direto: eficiência não é opcional. Estrutura de capital mal calibrada, custos sem controle e retorno abaixo do custo do dinheiro não são problemas que o tempo resolve. Num ambiente de juro real acima de 9%, eles se tornam irreversíveis mais rápido do que qualquer gestor gostaria de admitir.


Luís Valini Neto


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